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Crimes de ódio, ou crimes de Nojo?!Por Tarcila do Canto Costa.

28.11.2019

Existe muito mais a ser obervado no que se refere ao extermínio dos judeus no século xx e, sobretudo, ao próprio anti-semitismo, visto como uma inclinação histórica de certas camadas sociais no mundo ocidental, do que aquilo que está contemplado nas interpretações difundidas e institucionalizadas. Arendt, postula que, em proporções bastante variadas, a existência do anti-semitismo tem sido pensada a partir de associações que tão pouco correspondem a realidade dos fatos.

O período nazista que deflagra o terror mais pungente até então relacionado a potência política, denota um momento estremo do antisemitismo impresso na aniquilação de milhares de vidas torturadas. Deste momento crucial restam as impressões do seu efeito, destoado e distorcido pela manipulação de suas causas. Logo, algumas das explicações apressadas a que se refere a autora, identificam frequentemente o comportamento anti-semita como o exacerbado nacionalismo, o que para ela é um erro. Da mesma forma que os nazista não eram meros nacionalistas, a ideologia nazista, tão pouco, gravitou em torno da proposta anti-semita por acaso, e menos ainda em virtude de ampliar o arsenal demagógico.

Arendt, afirma que, para além do entendimento público e do senso comum, que o avanço do anti-semitismo moderno está menos ligado à explosões xenofóbicas do que ao declínio do nacionalismo tradicional. Isto é: a ruína do estado nação e a ruptura com uma série de valores, configuram o desgaste do papel desempenhado pelos judeus no âmbito do poder e da política encenados no cenário europeu ocidental e central. Esse dado, é na veradade o vestígio mais aparente da complexidade da questão anti-semita e dos motivos do seu surgimento e posterior radicalismo. Mas o fato de ambos os processos terem se dado concomitantemente, não é suficiente para recompor uma trajetória que se promete bem mais densa. Contudo, o conhecimento de tais regras gerais pode contribuir para o refutamento do que ela chama de “aparente bom senso”, onde a perseguição se dá em função do abuso cometido pelos perseguidos.

De fato, algumas teses escamoteiam a importância real das razões dos crimes cometidos contra os judeus, dentre elas, Arendt menciona a que trata os grupos espoliados em processos autoritários como bodes expiatórios, vítimas com prerrogativas comuns. Nesse caso, seriam os judeus bodes expiatórios apenas, sem nenhum agravante específico para sua perseguição e extermínio. Exemplo do contexto alemão-nazista.

Outra explicação ainda eterniza os judeus como comunidade perseguida e execreda, algo inerente ao próprio advento do ideal nazista.

Os judeus seriam, segundo essa perspectiva, vítimas em todos os tempos do anti-semitismo eterno e imanente, uma reação portanto  natural, que se agrava conforme o momento histórico. Para Arendt, essa visão seria uma das mais perigosas, sobretudo, depois do nazismo, ela poderia ser ultilizada como forma de apagar responsabilidades ou justificar a prática do terror.

Nesses termos, Arendt se esmera em deixar claro a qual bom senso o anti-semitismo ofende. As explicações precárias, amalgamadas à superficialidade dos resgates históricos empreendidos, não contribuem para o real entendimento do que foi o extermínio dos judeus na Europa durante o Nazismo, muito pelo contrário. E nesse caminho, a seriedade do atentado cometido perde força em termos de sua visualização completa, como o esquentamento do processo bem mais longo e anterior ao próprio Nazismo. A Europa já abrigava o anti-semitismos nos  séculos que premeram  o XX. Quando Arendt aproxima a crise do sistema político tradicional europeu ao avanço do anti-semitismo, está apontando para o olhar crucial que deve ser lançado sobre a questão judaica como parte da estrutura geral do desenvolvimento do próprio Estado Nação.

Do mesmo modo, ainda sobre as origens do anti-semitismo, inseridos aí estão certos aspectos importantes da história judaica. As representações dos judeus sobre , o esgotamento de algumas tradições norteadoras, devem ser considerados também no sentido de compreender a origem do anti-semitismo, mas, para que tenham ultilidade, esses elementos devem ser obeservados dentro do sistema político geral. Existe, assim, e do ponto de vista histórico, isso representa uma trajetótia onde certos elementos pesam mais do que a divulgação banal e a manipulação feita dos vários deficientes sentidos atribuídos à questão.

A formulação de Hannah Arendt significa muito, em todos os sentidos.

Talvez , por isso mesmo seja difícil descartar sua história pessoal. Ao entender suas idéias, entende-se também de que forma aquilo nos é retratado apenas nos livros de história contemporânea, em narrativas bastantes fragmentadas e ao mesmo tempo muito receitadas e reproduzidas, sobretudo, no dia-a-dia acadêmico, se manifesta e cola na subjetividade, os erros não se apaga mesmo que exista esforço em tentar esquece-lo, mas, no caso de escrever sobre um terror cometido por outros, o discurso pode ser ainda mais contundente, se quem escreve também sentiu na pele toda tortura relatada. Parecer sádica, cínica, irônica, sarcástica…coisa de sobrevivente com QI elevado. 

O texto de Arendt expressa, além do valor sociológico e filosófico, um relato subejetivo marcado por experiências onde se reclama também a emancipação da subjetividade subjugada, da identidade deteriorada. Mas, se objetivássemos nossa subjetividade do modo como deve fazer um cientista restaria-nos, talvez, apenas uma explicação sócio-antropológica que mostra que o nojo é culturalmente construído e socialmente disseminado. O nojo está relacionado aí à representação simbólica da violência. Como nos mostra a antropologa inglesa em uma clássico da área intitulado “pureza e perigo”: se a impureza é simbolicamente construída, bom, a explicação por si só bastaria para banir a dor específica e terrivelmente da visualização do extermínio de um grupo inteiro.

Pensando no Brasil atual, vale a pergunta: os crimes cometidos contra determinados grupos pelo estado são de ódio ou de nojo?!

Arentd  elabora a idéia da ofensa ao bom senso nos termos da dor que não pode deixar de ser sentida, mesmo com objetividade e imparcialidade. 

RESENHA Por TARCILA DoCANTO COSTA

 Titulo:

CRIMES DE ÓDIO, OU CRIMES DE NOJO?!

 Obra resenhada:

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarisno. SP: Cia das Letras, 1998.

 

 

 

 

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