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Precisamos sim discutir, sobre gênero nas escolas, para eliminar todo e qualquer preconceito e discriminação.

16.06.2018

Hoje vamos contar a história da Tarcila, primeira pessoa transsexual a fazer a mudança no registro civil, no Vale de Araranguá de SC.

“Eu sempre fui uma menina, sempre me sentia uma menina, entrei muito cedo na escola, com cinco anos já sabia ler e escrever.

Desde muito cedo comecei a sofrer bullying, porque era uma menina e me comportava como uma. Fiquei com problemas no abdômen de tanto segurar as necessidades para não utilizar o banheiro dos meninos, que em muitos casos quando frequentava, era assediada.

Mas o pior bullying sofrido, foi em casa.

Principalmente minha mãe que era muito preconceituosa e não tolerava meu comportamento feminino, por isso apanhei bastante.

Minha irmã e meu pai também se comportavam do mesmo modo.

É interessante o fato de ter sido considerada um problema pela escola, chamaram meus pais para dizer que meu comportamento feminino estava causando problemas, mesmo não fazendo nada de errado.

Na opinião dessas orientadoras eu era culpada pelo bullying que eu mesma sofria…

Na adolescência, me masculinizei devido aos hormônios e fui estudar na Universidade Federal de SC, formando-me em antropologia e hoje sou neuro- antropóloga.

Mudei para SP, onde fui contratada para ser analista na USP para trabalhar em um projeto sobre demência e declínio cognitivo.

Eu era um guri um bonito, então fui também contratado para fazer fotos, mas nunca levei isso a sério, preferi me concentrar no meio acadêmico.

Intimamente era um guri bravo e deprimido, chegou um ponto, que decidi que tinha que fazer a transformação, foi quando procurei atendimento especializado.

Nos últimos 3 anos faço tratamento endocrinológico e desde então atravessei vários problemas durante a transformação, dentre os quais, a perda de amigos por não aceitarem minha mudança.Não aceitaram que minha identidade psíquica era de uma mulher.

Estou na fila aguardando a cirurgia atualmente enquanto estudo para entrar no doutorado na USP, estudando neurociência.

Perdi contato com minha família durante a transformação, mas atualmente tenho aceitação de minha família.

Atualmente ainda tenho problemas com atitudes transfóbicas, mesmo dentro da USP, onde fui agredida por um professor e expulsa aos berros.

Na grande metrópole de SP por incrível que pareça há mais preconceito do que em SC, onde existe mais ódio, por conta do volume dos tipos diversificados, as reações são mais violentas.

Mas mesmo assim, ainda espero poder seguir minha carreira acadêmica de pesquisa e ter uma vida convencional.”

Trazendo um contexto histórico científico:

“Durante todo o século XX e início do século XXI, as lutas pelas igualdades de gênero, étnico racial e também pela diversidade, tem sido temas constantes em nossa sociedade.

Todavia, o predomínio de atitudes e convenções sociais discriminatórias, em todas as sociedades, ainda é uma realidade tão persistente, quanto naturalizada.

No Brasil, as discriminações de gênero, étnico-racial e por orientação sexual, como também a violência homofóbica, são produzidas e reproduzidas em todos os espaços da vida social brasileira.A escola infelizmente é um deles.

Não bastarão leis, se não houver a transformação de mentalidades e práticas, daí o papel estruturante que adquirem, as ações que promovam as discussões desses temas, que motivem as reflexões individuais e coletivas e que contribuam para a superação e eliminação de todo e qualquer tratamento preconceituoso.

As ações nos campos educacionais no campo de formação de profissionais, como o Curso de Gênero e Diversidade nas escolas, são fundamentais para ampliar a compreensão e fortalecer a ação de combate à discriminação e o preconceito.”

Nesse contexto, pode-se dizer que “discutir gênero” não é nenhum atentado aos valores humanísticos ou de respeito à dignidade humana. Bem ao contrário, os debates sobre gênero visam incluir sujeitos tradicionalmente excluídos – mulheres, transexuais, bissexuais, lésbicas, assexuais, homossexuais, indígenas, negras e negros – e trazer visibilidade aos mecanismos de opressão a que se encontram sujeitos.

Trata-se de uma estratégia que busca justamente a reversão dessas opressões por meio do desvelamento dessas estruturas limitantes. O resultado é a construção de uma sociedade mais justa e igualitária, voltada para um conceito de todos que realmente seja inclusivo.

Entrevista com Tarcila do Canto Costa.

Referências bibliográficas:

Gênero e diversidade na escola.

Portal Justificando

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